No cenário contemporâneo, a infância tem sido frequentemente marcada por agendas lotadas, excesso de estímulos digitais e uma vigilância constante sobre o comportamento infantil. Sobre este assunto, lhes convido a uma reflexão urgente; estamos permitindo que a criança tenha liberdade para se constituir como sujeito?
A psicanálise oferece uma perspectiva fundamental: a liberdade na infância não é sinônimo de falta de limites, mas sim a garantia de um espaço seguro para a criatividade, a espontaneidade e a elaboração do mundo interno. Para isso, é preciso que a criança seja vista como um Sujeito e não como Objeto.
Artigos acadêmicos recentes enfatizam a necessidade de escutar a criança como um “sujeito de desejo”, e isso significa reconhecer que a criança não é uma extensão dos pais, nem um projeto a ser moldado à perfeição.
Quando controlamos excessivamente o comportamento infantil, corrigindo cada movimento, impedindo a sujeira ou antecipando suas falas, corremos o risco de sufocar sua subjetividade. A literatura aponta que a liberdade de expressão (seja pela fala ou pelo ato) é crucial para que a criança possa se diferenciar dos adultos e construir sua própria identidade.
E um artifício muito usado na Psicanálise para a construção da própria identidade é o brincar, que serve como espaço de liberdade, e é no brincar livre, aquele não dirigido por adultos, sem fins pedagógicos estritos que a saúde mental se estabelece.
É necessário dar à criança a liberdade para o ócio e para o tédio. É no vazio de atividades dirigidas que surge o impulso criativo. Artigos sobre “o brincar e a realidade” mostram que, quando o adulto intervém o tempo todo, a criança perde a capacidade de estar só e de usar seus próprios recursos para lidar com a angústia e a alegria.
Ao pensarmos na liberdade para o ócio é preciso pensar na liberdade com amparo, e mais além, é fundamental distinguir “liberdade” de “abandono”. A psicanálise ensina que a criança precisa de um ambiente de holding (sustentação)e a verdadeira liberdade só é possível quando a criança sente que há uma rede de segurança.
Os limites funcionam, paradoxalmente, como organizadores dessa liberdade. A criança precisa saber que pode explorar o mundo, correr e imaginar, mas que existe um adulto responsável cuidando para que ela não se machuque ou se desorganize psiquicamente. É a liberdade de ser protegida por uma autoridade amorosa.
Promover a liberdade na infância é um ato de coragem em uma sociedade de controle, e permitir que a criança brinque livremente, se suje, invente histórias e tenha momentos de autonomia não é “perder o controle”, mas sim investir na saúde mental do futuro adulto.
Respeitar o tempo e o modo de ser da criança é a forma mais ética de apostar na constituição de um sujeito autônomo e criativo.
Referências bibliográficas:
SANTOS FILHO, Francisco Carlos; COSSETIN, Vânia Lisa Fischer. O desconhecido íntimo: uma reflexão sobre o infantil, a psicanálise e a educação. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 29, e290128, 2024. Acesso em 23/05/26
Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/7xQRKKqJdNShVBCsJ4NVgBS/?lang=pt
PRISZKULNIK, Léia. A criança sob a ótica da Psicanálise: algumas considerações. Psic, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 72-77, jun. 2004.
Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-73142004000100009&lng=pt&nrm=iso>
Acesso em 23/05/26

